#história #charqueadas
No verão de 1749, o conde d'Argenson, Chanceler de Luís XV, recebeu uma curiosa carta de suplicas. Tratava-se de um grupo de livreiros parisienses que implorava a intervenção daquela eminência para que M. Denis Diderot, um notável homem de letras que havia sido preso e conduzido ao cárcere de Vincennes, na manhã de 24 de junho daquele ano, fosse solto.
Mas nada garantia a livre circulação do novo dicionário. Mal os dois primeiros volumes foram distribuídos aos seus assinantes (conseguiram com o tempo 4 mil inscrições, ao preço de 372 livres cada, um número espantosos para a época), o mesmo Conde d'Argenson entrou em ação em nome do rei. A obra, dizia o despacho real, era um perigo. Além de destruir a autoridade do monarca, visava a estabelecer o espírito independente, a revolta, a elevar os fundamentos do erro, à corrupção dos costumes, à irreligiosidade e à incredulidade. A Encyclopédie, concluía o Arret du Conseil d'État du Roi, de 7 de fevereiro de 1752, era uma ameaça à ordem pública e à honra da religião, cabendo ao rei determinar a imediata apreensão e destruição dos dois primeiros volumes.
Como um grupo de livreiros conseguiu tirar da prisão o
único homem capaz de tocar o projeto da Encyclopédie
Voltaire Schilling
Em julho de 1751, há mais de 250 anos, foi publicado o
primeiro volume de uma série que fez história: a Encyclopédie, cuja edição
estendeu-se por 21 anos, até 1772. Confirmou-se com o tempo como o mais
prestigioso monumento intelectual que o movimento iluminista legou aos tempos
modernos, concentrando em 28 volumes (17 de textos e 11 de ilustrações) a
síntese de toda a sabedoria alcançada pelo homem até então. Tornou-se,
simultaneamente, um documento de uma época e obra seminal de onde a maior parte
da ciência contemporânea inspirou-se para avançar para patamares até então
nunca imaginados pela humanidade: foi a Suma da Razão.
Uma carta suplicante
No verão de 1749, o conde d'Argenson, Chanceler de Luís XV, recebeu uma curiosa carta de suplicas. Tratava-se de um grupo de livreiros parisienses que implorava a intervenção daquela eminência para que M. Denis Diderot, um notável homem de letras que havia sido preso e conduzido ao cárcere de Vincennes, na manhã de 24 de junho daquele ano, fosse solto.
A alegação dos negociantes era no mínimo curiosa: haviam
empatado um bom sonante num empreendimento editorial, um dicionário universal
de ciências, de artes e ofícios, que só poderia ser tocado adiante por Diderot
e ninguém mais. Ele é quem tinha a chave do sucesso, alegavam.
Não revelavam os missivistas nenhuma indignação pelo fato
de um escritor ser encarcerado por delito de opinião – Diderot publicara um
tempo antes um ensaio intitulado Lettre sur les aveugles à l'usage de ceux
qui voient (Carta sobre os cegos para o uso dos que enxergam), que as
autoridades consideraram uma provocação. Assim, eles pediam humildemente a
Votre Grandeur, como repetidamente dirigiam-se a d'Argenson, que o libertasse
sob pena de levá-los à falência. Concluíram-na colocando-se sob a proteção do
conde, na expectativa de sensibilizá-lo com os rogos que faziam. Assinavam-na
Le Breton, David, L'aîne, Durand e Briasson, livreiros e impressores do rei.
Desta forma, entre mais três outros pedidos de clemência
que se seguiram e junto às alegações financeiras, eles afinal obtiveram a
libertação de Diderot três meses e 10 dias depois de ter sido preso, podendo
encaminhar os procedimentos para que, exatamente dois anos depois deste
desagradável episódio, o primeiro volume da Encyclopédieou Dictionnaire
raisonné des sciences, des arts et des métiers, par une Société de Gens de
lettres saísse do prelo no mês de julho do ano de 1751.
Ordens de supressão e queima
Mas nada garantia a livre circulação do novo dicionário. Mal os dois primeiros volumes foram distribuídos aos seus assinantes (conseguiram com o tempo 4 mil inscrições, ao preço de 372 livres cada, um número espantosos para a época), o mesmo Conde d'Argenson entrou em ação em nome do rei. A obra, dizia o despacho real, era um perigo. Além de destruir a autoridade do monarca, visava a estabelecer o espírito independente, a revolta, a elevar os fundamentos do erro, à corrupção dos costumes, à irreligiosidade e à incredulidade. A Encyclopédie, concluía o Arret du Conseil d'État du Roi, de 7 de fevereiro de 1752, era uma ameaça à ordem pública e à honra da religião, cabendo ao rei determinar a imediata apreensão e destruição dos dois primeiros volumes.
Sua Majestade tinha razão, o grande dicionário era tudo
aquilo mesmo. Ela iria implodir o Antigo Regime e inspirar a revolução de 1789.
Por isso mesmo, sete anos depois, em 9 de fevereiro de 1759, quando atingia o
seu 7º volume, o Parlamento de Paris aprovou e determinou que eles fossem laceres
et brûlés, destruídos e queimados pelo carrasco. Ato que, felizmente, foi
suspenso. Não revogaram, entretanto, a determinação de 1757 que condenava à
pena de morte ou às gales os autores ou editores de "obras
tendenciosas" que fossem distribuídas clandestinamente.
Denis Diderot
Os livreiros estavam certos, só Diderot era capaz de por aquela catedral da
razão em pé. Não só em função das suas múltiplas habilidades em ciências, mas
também por seu temperamento. Ele era um dos raros homens de letras de Paris com
quem todos se davam bem, inclusive o mercurial Jean-Jacques Rousseau que,
conforme a idade avançava, mais paranoico ficava. Afável, sincero, confiável,
Diderot circulava com desenvoltura nos cafés e nos salões onde se criticava
abertamente o despotismo ao tempo em que mantinha uma assídua correspondência
com Catarina II, da Rússia. Ingênuo, chegou a supor ganhar a musa da autocracia
para a causa dos filósofos. Quando em 1758 seu parceiro D'Alembert, um
talentoso matemático e homem de ciências, desistiu de continuar como co-responsável
editorial, ele seguiu adiante sozinho até o final. Não houve trovoada que o
assustasse, nem ofensa que não respondesse, não existiu ameaça que o
encolhesse. A sua pena não tremia em dar o troco aos intermináveis inimigos da
publicação.
A tempestade
Desde a aparição do primeiro volume (tiragem de 2050 exemplares), aEncyclopédie atraiu
a artilharia pesada da oposição. Jesuítas, padres seculares, bispos e simples
padres de aldeia, o partido dos devotos enfim, trataram de inflamar os espíritos
contra os volumes que creditavam ser demoníacos. Oracle des nouveaux
philosophes, "oráculo dos novos filósofos", batizou-a o indignado
abade Guyon num polêmico escrito de 1759. Durante um decênio e meio, uma
tempestade de artigos e uma enxurrada de vitupérios varreu o reino de Luís XV,
provocando uma daquelas formidáveis querelas intelectuais de que só a França é
capaz. Clamores pela fogueira de um lado, reforçados pela condenação da obra
pelo Papa Clemente XIII (3/9/1759), eram respondidos com apelos ao bom senso e
à tolerância pelo outro.
Um apoio inesperado
O partido dos filósofos, dos enciclopedistas, como eles passaram a ser
chamados, contou com um apoio inesperado. Madame Pompadour, a amante do rei,
talvez por identificar-se com a situação dos perseguidos, teceu os fios da sua
apreciada proteção nos bastidores da câmara real, tolhendo as iniciativas dos
fanáticos. Foi, dentro dos seus limites, a fada madrinha deles.
O fato do Parlamento de Paris ter aprovado a pena de morte
em certas circunstâncias, para os escritores e livreiros era revelador da
tensão a que o país e os seus homens de letras estavam submetidos. Os tempos,
porém, eram outros, e os mecanismos da opressão não eram mais eficazes. Além
disso, Diderot juntara a nata da inteligência francesa para colaborar na Encyclopédie.
Era como se o melhor do espírito nacional em peso se sentasse à escrivaninha,
pegasse pena, tinta e papel, e começasse a completar os verbetes do dicionário.
Portanto, não era nada fácil reprimir os colaboradores ou hostiliza-los além da
conta.
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