O comício da Central, hoje
Discurso de João Goulart em 13 de março de 1964 representaria a tentativa de fazer reformas estruturais no Brasil. Mas sua intenção desagrava interesses nacionais e internacionais.
Nashla Dahás
O governo João Goulart encerra um período-chave da recente história política brasileira. Marcado por um enfrentamento político popular e pela crise política institucional, os discursos da época a que podemos ter acesso demonstram a agressividade e a clareza das tomadas de posição em nome de projetos nacionais divergentes (algo raro, ao menos até bem pouco tempo, na sociedade atual).
Por um lado, entre 1961 e 1964 a estratégia das direitas mais reacionárias e conservadoras, especialmente os grupos ligados à liderança do jornalista Carlos Lacerda, foi galvanizar a atenção do público através da mídia, ornamentadas pela imagem de combatentes anticomunistas. Ao mesmo tempo uma multiplicidade de grupos que chamamos hoje de “as esquerdas”, foram construindo um imaginário e uma linguagem política ainda recorrente na grande imprensa, no senso comum e no mundo acadêmico, tais como “burguesia reacionária”, “capital internacional espoliativo”, “imperialismo norte-americano”, “congresso de latifundiários”, entre outros.
LEIA O DISCURSO DE JOÃO GOULART NA CENTRAL, NO DIA 13 DE MARÇO DE 1964
Ganhavam espaço as diferenças, marcando as identidades através de oposições que, em verdade, simplificavam a heterogeneidade e a complexidade dos grupos e alianças políticas da época. Pode-se dizer que o resultado talvez tenha sido certo mascaramento da grande questão que envolveu o conflito político do início dos anos de 1960 e que está na raiz do golpe civil-militar de 1964: manter ou modificar o modelo de desenvolvimento econômico e de participação política – democracia – vigente. Vale lembrar que cerca de 60% da população da época era analfabeta e, portanto, não tinha direito a voto; este que, hoje, é o único meio institucionalizado de participação política popular.
No comício do dia 13 de março de 1964, merece atenção especial o discurso do político gaúcho Leonel Brizola, encarado pela historiografia mais recente como o símbolo máximo de radicalização política que teria sido responsável pelo colapso da democracia à época. Brizola iniciou sua intervenção tratando das divergências entre os próprios organizadores do comício que teriam tentado impedir sua participação.
Demarcou, sobretudo, as suas diferenças políticas em relação ao presidente da República e o seu grupo de políticos e organizações mais próximas. Era, possivelmente, um aviso de que não mediria as palavras para enquadrar-se ao discurso de João Goulart, este sim, temeroso da repercussão que o evento poderia causar. Não mudaria o estilo político que lhe consagrou como liderança das esquerdas “radicais”, nem deixaria de defender as bandeiras da Frente de Mobilização Popular que criou e em nome da qual iniciava seu pronunciamento.



