#história #charqueadas
Voltaire
Schilling
Até
agosto de 1914, o continente europeu, pelo menos na sua parte Ocidental, era um
lugar invejado em todos os cantos da terra. Países como a Grã-Bretanha, a
França, o Império Alemão e o Reino da Itália, além do padrão de vida,
concentravam o maior número de invenções e de descobertas feitas até hoje, a
maioria delas nos laboratórios onde trabalhavam parte significativa dos
cientistas existentes no mundo daquela época, ao tempo em que celebravam a
excelência das suas artes e o avanço tecnológico e civilizatório que atingiram.
Repentinamente,
uma crise na região dos Bálcãs, envolvendo a pequena Sérvia e o Império
Austro-húngaro, jogou a Europa e depois os demais continentes nos braços da
morte. A guerra que aparecia inicialmente limitar-se ao Bálcãs espalhou-se como
um campo em fogo pelo restante do globo. Declarada a guerra, que não
tardou a ser denominada como a Grande Guerra, milhões de jovens da Europa, da
América, da África e da Ásia e até da Austrália e Nova Zelândia entraram em
combate (ao todo 50 milhões foram convocados).
Cegos
pelo patriotismo e obedientes à Máquina de Extermínio dos seus respectivos
impérios ou países a quem serviam, marcharam para o desastre, como se fizessem
parte de um mortífero ritual de suicídio coletivo, sem que ninguém pudesse mais
detê-los.
O
historiador Christopher Clark chamou os responsáveis pela catástrofe de ‘Os
sonâmbulos’, e o romancista vienense Hermann Bloch, na trilogia do mesmo
título, registrou os filhos daquela época como ‘seres que vivem em estado
letárgico, entre a agonia e a emergência de sistemas éticos’.
A
contabilidade funesta
"Será razoável supormos que toda a civilização elevada desenvolve tensões
implosivas e movimentos de autodestruição?", escreveu George Steiner
no livro "No castelo do barba azul" (1971). "Será a
fenomenologia do tédio e do anseio pela dissolução violenta uma constante na
história das formas sociais e intelectuais a partir do momento em que
ultrapassam um certo limiar de complexidade?”
“Armistício!
Armistício!” A notícia varou o mundo. Os telégrafos enlouqueceram. O marechal
Ludendorff, o supremo comandante da Reichwehr, o exército da Alemanha Imperial,
encaminhara a solicitação de um armistício aos aliados. O II Reich tinha
exaurido todas as suas forças.
Em
novembro de 1918, a Grande Guerra chegara finalmente ao término. Em instantes
as ruas e praças de Nova Iorque, Paris, Londres, Roma e tantas outras mais,
encheram-se com as multidões exultantes com o fim da matança. Quatros anos
antes, em 1914, as mesmas multidões inconscientes do vinha pela gente atiçaram
com clarins marciais, gritos patrióticos e ramadas de flores, os soldados a
partir para o fronte.
Naquele
momento, em novembro de 1918, quando se anunciou que o mundo voltava à paz -
contabilizando 8.5 milhões de mortos e um incalculável número de mutilados e
feridos -, as ruas celebravam a sobrevivência.
Perplexidade
Para os historiadores do futuro certamente causará assombro a arrogante
cegueira demonstrada pelas elites europeias: seus estadistas, seus generais e
diplomatas, seus políticos, seus jornais, seus professores que enfatizaram
"como era doce morrer pela pátria" no empenho que tiveram para
alcançar a sua autodestruição.
Até o
malfadado ano de 1914, era inquestionável o domínio europeu sobre o restante do
mundo. Na Ásia, na África, na América Latina, na Austrália ou na Polinésia,
tudo girava em função das necessidades e lucros dos interesses financeiros e
estratégicos sediados no Velho Continente. Nenhuma ponte era erguida, nem um
poste era instalado, nem estrada-de-ferro era estendida, nem fábrica
inaugurada, que não tivesse nelas a presença de capitais europeus. E, em apenas
quatro anos de morticínio, os estadistas europeus conseguiram desbarataram quase
tudo.
A
favor do Império Romano pode-se ainda dizer que a sua dissolução pelo menos foi
consequência involuntária da chegada da maré bárbara que, inexorável,
transbordou o Danúbio e o Reno, levou tudo de roldão. Mas qual a
justificativa dos chefes de estado europeus para lançar sua juventude numa
guerra de extermínio?
Previsões
sombrias
É certo que Marx e, depois dele, Nietzsche, por motivações ideológicas
diversas, previam catástrofes para os anos vindouros. Épocas onde o
“proletariado” ou a “besta-loura” agiriam como o dissolvente “bárbaro interno”.
E, tal como os dois pensadores, inúmeros outros artistas e poetas espelharam
sentimentos incrivelmente destrutivos e ruinosos sobre as possibilidades
futuras do Velho Mundo mergulhar no sangue. Ninguém, porém, imaginou que
atingissem as dimensões trágicas das batalhas de Verdum (714 mil baixas), de
Chemin des Dames, do Somme, de Ypres, de Tannenberg, de Caporetto ou de
Galípoli.
Somente
nas duas primeiras, o exército francês perdeu mais gente do que Napoleão em
vinte anos de campanhas! Quase toda a riqueza acumulada em séculos de
exploração do globo esvaiu-se num piscar de olhos. E, com ela vieram abaixo
dinastias centenárias (Hohenzoller, Habsburgo, Romanov, e outras menores).
Freud,
em Viena, chocado com o entusiasmo que a guerra provocara nos austríacos,
forçou-se a rever suas teorias da civilização. Percebeu, estarrecido, que por
de trás do mais sisudo e empertigado europeu batia o tantã de um selvagem.
A cultura deles pareceu-lhe um falso verniz, bastando arranhá-lo para que a
selvageria viesse fosse exposta à vista. Na guerra, Eros o deus do Amor foi
destronado por Thanatos, o da destruição e morte visto ter ‘o coração de
ferro e as entranha de bronze’.
O
horror nas trincheiras
O pior ainda estava para surgir. Passada a febre inicial da euforia
patrioteira, os soldados foram convencidos a continuar lutando no fronte por
quatro anos seguidos, enfiados em labirintos de lama, nauseabundos e tifosos,
em razão dos generais e dos políticos lhes dizerem que aquela seria a “última
das guerras”.
No
entanto, mal as noticias da capitulação alemã, assinada em Compiège em 11 de
novembro de 1918, se espalharam, um surdo furor vingativo instalou-se no
espirito de muitos dos sobreviventes, do lado dos vitoriosos ou dos derrotados.
Entre
eles, no estafeta do regimento List, Adolf Hitler que maldizia estar acamado,
semicego, no hospital militar de Pasewal recuperando-se de um envenenamento por
gás: no futuro, disse ele, “seremos desumanos, se for preciso!”
O
enigma continua
A quem, afinal, pode-se responsabilizar pelo suicídio daquela civilização?
Lenin e outros socialistas apontaram os imperialistas, os capitalistas, os
oligopolistas, ou os militaristas, e até mesmo, como fizeram os
antissemitas, os judeus.
George
Steiner, o grande crítico, percebeu a grande tragédia resultar de uma sensação
denunciada anteriormente por Baudelaire: o tédio! Desde a derrota de Napoleão
em 1815, os europeus teriam mergulhado numa perigosa mistura de tédio - a
“grosse Langeweile” de Shopenhauer; “l’ennui atroce” de Flaubert; o “spleen” de
Baudelaire - com uma paixão nostálgica pela heroicidade, de volúpia pelo
desastre e pelas ruínas, que os conduziu à morte na paisagem lunar provocada
pelas explosões em Verdum e de tantos outros campos de guerra.
Na
verdade, nunca se encontrou uma causa única comum aos que se envolveram na
matança, todas as respostas são parciais com marcado compromisso ideológico que
pouco satisfaço. A responsabilidade sobre a deflagração da Grande Guerra
continuará sendo um dos enigmas a desafiar os séculos vindouros: por que os
Europeus, continente mais civilizado do planeta, entraram em guerra em
1914 e não souberam mais pará-la?





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