terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

#UM PRESENTE DO NILO *



Jaime Pinsky
Heródoto, historiador grego que viveu no século V, tem uma célebre frase em que afirma ser o Egito uma dádiva, um presente do Nilo.
Existe uma discussão bizantina em torno da paternidade da expressão, que alguns atribuem a Hecateu de Mileto; mas não importa tanto o pai natural e sim o de criação: este foi Heródoto.
A frase atravessou séculos e é repetida acriticamente por todos os manuais de história que falam do Egito. Fica, para muitos, a impressão que Heródoto efetivamente quis passar, ou seja, que mais importante do que a ação do homem, é o dom da natureza. Etnocêntricos e pretensiosos, os gregos tinham um despeito enorme do Egito, sabidamente já uma grande civilização, quando eles mesmos ainda viviam em aldeias isoladas.
Considerando-se superiores, não podiam aceitar esse fato a não ser atribuindo-o a razões sobrenaturais ou, simplesmente, a razões geográficas.
Que os gregos subestimassem os egípcios é, pois, compreensível. O que não é aceitável, contudo, é a repetição do mesmo preconceito. Não há um milagre egípcio, ele tem bases muito concretas. O rio, em si, oferece condições potenciais, que foram aproveitadas pela força de trabalho dos camponeses egípcios -- os felás -- , organizados por um poder central, no período faraônico. Trabalho e organização foram, pois, os ingredientes principais da civilização egípcia. O rio, em si, como pode ser visto em ilustrações, ao mesmo tempo que fertilizava, inundava. A cheia atingia de modo violento as regiões mais ribeirinhas e parcamente as mais distantes. Era necessário organizar a distribuição da água de forma mais ampla, para se poderem evitar alagados ou pantanos em algumas áreas e terrenos secos em outras.
A solução foi o trabalho coletivo e solidário, intenso e organizado. A civilização egípcia começou a ser montada com o trabalho organizado a partir de condições geográficas favoráveis. Mas a civilização não é uma dádiva dessas condições geográficas, do Nilo, uma vez que surge quando o homem atua, modificando e domando a natureza.

Uma truta que chega a um riacho límpido, de água corrente e fria, dotado de vegetação que lhe sirva de alimento, recebe uma dádiva da natureza: isso é história natural. Um grupo humano que se organiza através do trabalho para explorar as condições favoráveis de uma determinada região, alterando-a no processo de extração de sua substância, é algo muito diferente: é a história social.

Um comentário:

  1. ser o Egito uma dádiva, um presente do Nilo. ser o Egito uma dádiva, um presente do Nilo. Rio Grande do Sul Charqueadas http://historiashistory.blogspot.com.br/

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